Energia solar por assinatura: como funciona a geração compartilhada, quanto economiza de verdade e 5 cláusulas pra ler antes de assinar
Energia solar por assinatura em 2026: economia real de 10-20% na conta, como funciona a geração compartilhada, empresas no Brasil e checklist do contrato.
Equipe Editorial
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Se você mora de aluguel, em apartamento ou numa casa com telhado cheio de sombra, energia solar por assinatura economiza entre 10% e 20% na conta de luz sem instalar nada, sem investimento e sem compromisso com equipamentos. Numa conta de R$ 400, são R$ 40 a R$ 80 por mês. A comparação justa não é com quem tem R$ 20 mil pra painéis no telhado — é com continuar pagando tarifa cheia pra distribuidora enquanto ela sobe 7% ao ano.
O modelo cresceu rápido no Brasil. Eram 1.900 usinas nessa modalidade em 2021; em 2023, já passavam de 6.600 (ABSOLAR). A Cemig SIM sozinha investiu R$ 280 milhões e atende mais de 7 mil clientes. Mas junto com o crescimento vieram empresas sem estrutura, contratos opacos e consumidores no Reclame Aqui reclamando de cobranças indevidas e cancelamentos que não saem. A diferença entre economizar e levar prejuízo está nas cláusulas do contrato.
O mecanismo por trás da assinatura
O nome comercial é “energia solar por assinatura”. O nome técnico, registrado na ANEEL e regulado pela Resolução Normativa 1.059/2023 e pela Lei 14.300/2022, é geração compartilhada — uma modalidade de geração distribuída onde vários consumidores dividem os créditos de energia de uma mesma usina solar.
Funciona assim: uma empresa constrói uma usina solar de médio porte (geralmente entre 1 e 5 MW) numa região com boa irradiação. A energia gerada é injetada na rede da distribuidora e se transforma em créditos de energia. Esses créditos são distribuídos proporcionalmente entre os assinantes, cada um recebendo uma cota. Quando a distribuidora calcula sua fatura, abate os créditos recebidos do seu consumo. O que sobra aparece como saldo positivo e vale por 60 meses.
Você não recebe eletricidade da usina. A energia que chega na sua tomada vem da rede local, como sempre. O que muda é a fatura: os créditos da usina remota abatem o valor que você pagaria. É um acerto contábil, não uma transferência física de elétrons.
A empresa cobra uma mensalidade ou um percentual dos créditos gerados. A maioria trabalha com 80% a 90% do valor dos créditos. Se a usina gera R$ 250 em créditos pra sua cota e a empresa cobra 85%, você paga R$ 212,50 pra empresa mais o custo de disponibilidade pra distribuidora (R$ 19,35 em ligação monofásica pela Enel SP). Total: R$ 231,85. Sem a assinatura, pagaria R$ 300 de conta. Economia: R$ 68,15, ou 23%.
Na prática, o desconto real fica menor. A usina nem sempre gera exatamente o previsto (dias nublados, manutenção), e o Fio B de 60% em 2026 incide sobre os créditos compensados — mesma regra de quem tem sistema próprio. Com essas variáveis, a economia líquida oscila entre 10% e 20%.
A conta real: quanto se economiza em reais
Vamos pegar uma conta de R$ 400/mês em São Paulo (Enel SP, tarifa de R$ 0,645/kWh, ANEEL 2025). Consumo de uns 620 kWh.
Se a empresa de assinatura cobra 80% dos créditos (desconto de 20%), a conta mensal fica assim: R$ 19,35 de custo de disponibilidade pra distribuidora, mais R$ 304 pra empresa solar (80% de R$ 380 em créditos), mais uns R$ 20 de Fio B residual. Total: R$ 343. Economia: R$ 57 por mês, ou 14%.
Numa conta de R$ 600 (consumo de ~930 kWh, perfil de família com ar-condicionado), a economia sobe pra R$ 85/mês com o mesmo percentual de desconto. Em 12 meses, são R$ 1.020 sem ter investido um centavo.
Agora a comparação dura. Quem instala um sistema próprio de 5 kWp por R$ 20 mil em São Paulo economiza R$ 275/mês líquidos — quase 5 vezes mais. E a economia cresce com o reajuste tarifário: em 10 anos, passa de R$ 530/mês. A assinatura acompanha o reajuste? Depende do contrato. Algumas empresas reajustam o percentual cobrado pelo IGPM ou IPCA, mantendo o desconto constante. Outras travam o desconto nominal — e aí a vantagem derrete com a inflação energética.
A tabela mostra o cenário realista:
| Modalidade | Investimento | Economia/mês (ano 1) | Economia em 10 anos | Economia em 25 anos |
|---|---|---|---|---|
| Assinatura (14% líquido) | R$ 0 | R$ 57 | ~R$ 9.200 | ~R$ 33.000 |
| Sistema próprio (5 kWp) | R$ 20.000 | R$ 275 | ~R$ 46.000 | ~R$ 127.000 |
| Sem solar | R$ 0 | R$ 0 | R$ 0 | R$ 0 |
A assinatura perde de lavada do sistema próprio. Mas ganha disparado de “não fazer nada”. R$ 33 mil de economia em 25 anos sem investir nenhum real é dinheiro real no bolso de quem não pode instalar painéis.
Quem opera no Brasil
O mercado de energia solar por assinatura no Brasil tem uns 20 operadores relevantes. Vou citar os maiores por capacidade instalada e base de clientes, sem recomendar nenhum.
A Cemig SIM é a maior operação do país. Subsidiária da Cemig (estatal mineira), opera 23 usinas solares com 300 MWp de capacidade instalada, atende mais de 7 mil clientes e projeta investir R$ 3,5 bilhões até 2029 pra atingir 1 GWp (Cemig, 2025). Começou em Minas Gerais e está expandindo pro Sudeste e Centro-Oeste. Vantagem: lastro de estatal. Limitação: atende na área de concessão da Cemig e parceiros.
A EDP Smart (subsidiária da EDP, multinacional portuguesa) oferece assinatura 100% digital, sem instalação, pra residências e empresas. Opera na área da EDP São Paulo (região do Vale do Paraíba e Guarulhos). Promete até 20% de economia.
A Sun Mobi é uma energytech que opera na área da CPFL Piratininga (27 cidades do interior de SP). Fez parceria com a GreenYellow (francesa) pra inaugurar usinas em São Paulo. Fundada em 2016, tem 300 clientes hoje, foco em comércio e gastronomia.
A Lemon Energia trabalha com modelo de marketplace: conecta usinas já existentes a consumidores. A economia anunciada é de 20% a 25%. Opera em várias distribuidoras, o que amplia a cobertura geográfica.
A Solfacil Smart é o braço de assinatura da Solfacil (fintech que já financiou R$ 6,5 bilhões em projetos solares). Lançou o modelo de assinatura pra complementar o financiamento, atendendo a Grande São Paulo via parcerias com integradores.
Além desses, cooperativas de energia solar operam nesse modelo no Sul e Sudeste, e startups regionais como Bulbe (MG), Enova, Sunne e Elegy atendem nichos específicos.
Atenção: várias startups que entraram entre 2021 e 2023 foram absorvidas ou fecharam. O mercado está em consolidação. Priorize empresas com pelo menos 2 anos de operação e usinas já funcionando — não “em construção”.
5 cláusulas do contrato que definem se compensa
O desconto de 15% na propaganda pode virar 8% na prática se o contrato tiver armadilhas. Antes de assinar, leia estas 5 cláusulas com lupa.
1. Percentual cobrado sobre os créditos (e se é fixo ou variável). A empresa cobra 80% dos créditos? 85%? 90%? A diferença entre 80% e 90% é a diferença entre economizar 20% e economizar 10%. Atenção ao “até” — “economia de até 20%” permite que a empresa entregue 5% e esteja tecnicamente cumprindo o contrato.
2. Índice de reajuste da mensalidade. Se a empresa reajusta pelo IGPM (que subiu 14,4% em 2021, IBGE) e a tarifa sobe 7%, seu desconto encolhe todo ano. O melhor cenário: reajuste atrelado à própria tarifa da distribuidora. O pior: IGPM ou “a critério da empresa”.
3. Prazo mínimo e multa por cancelamento. Contratos de 12 meses com multa de 3 parcelas são razoáveis. Contratos de 36 meses com multa proporcional ao restante são algemas. Alguns contratos empresariais cobram o equivalente a todo o período remanescente — em 36 meses, sair no mês 6 significa pagar 30 meses de multa.
4. O que acontece se a usina gerar menos que o prometido. Meses nublados, manutenção da usina, curtailment da distribuidora — tudo isso reduz a geração. A empresa abate o valor da sua assinatura proporcionalmente? Ou cobra o mesmo independente da geração? Essa cláusula define o risco: se a empresa cobra fixo e a usina gera menos, você paga pela energia que não recebeu.
5. Cláusula de mudança de endereço. Quem mora de aluguel precisa verificar: se mudar pra outro endereço na mesma distribuidora, o contrato migra? Cobra taxa de transferência? E se mudar pra outra distribuidora (Ex: sair da Enel SP pra CPFL)? Na maioria dos casos, mudança entre distribuidoras cancela o contrato — porque os créditos só funcionam dentro da mesma concessionária.
Os riscos que o vendedor não menciona
A empresa pode fechar. Se a empresa quebrar, seus créditos param. Os contratos de locação ou arrendamento da usina podem ser transferidos, mas na prática o processo é demorado e os créditos ficam congelados até resolução. No Reclame Aqui, há reclamações de consumidores que continuaram recebendo cobranças mesmo após solicitar cancelamento — em alguns casos com assinatura eletrônica feita sem consentimento.
Créditos podem ser insuficientes. A usina pode gerar abaixo do projetado por falha técnica, problemas de conexão com a distribuidora ou excesso de assinantes na mesma cota. O resultado: você paga a mensalidade da assinatura E parte da conta da distribuidora. A conta total pode ficar maior do que sem a assinatura.
A ativação demora. Após assinar o contrato, a ativação dos créditos depende de homologação junto à distribuidora. O prazo varia de 30 a 90 dias. Durante esse período, você pode estar pagando a assinatura sem receber créditos — dependendo da cláusula de início de cobrança.
A regulação está em movimento. A Lei 14.300/2022 e a Resolução 1.059/2023 da ANEEL são o marco atual. Mas a MP 1.300/2025 e a Lei 15.269/2025 mexeram em pontos da geração distribuída, e há projetos no Congresso que podem alterar regras de compensação. Risco baixo de mudança drástica, mas existe.
Um filtro simples que elimina 80% dos problemas: verifique se a empresa tem usinas registradas como geração distribuída no banco de dados aberto da ANEEL (dadosabertos.aneel.gov.br). Se não aparecer, fuja.
Assinatura vs sistema próprio vs mercado livre
A energia solar por assinatura não é a única alternativa pra quem quer pagar menos na conta de luz. O sistema próprio (painéis no telhado) e o mercado livre de energia são caminhos diferentes com perfis diferentes.
Assinatura (geração compartilhada): investimento zero, economia de 10-20%, contrato mensal ou anual, disponível pra qualquer consumidor residencial ou comercial na área da distribuidora da usina. Regulado pela ANEEL como GD. A energia não é “sua” — são créditos contábeis de uma usina alheia.
Sistema próprio (GD no telhado): investimento de R$ 15 mil a R$ 25 mil, economia de 80-90% (R$ 275/mês num sistema de 5 kWp em SP), payback de 4 a 6 anos, retorno de R$ 127 mil em 25 anos. Exige telhado adequado e capital ou financiamento. Se você tem as condições, compensa muito mais do que assinatura.
Mercado livre de energia: desde 2024, consumidores conectados em média e alta tensão (demanda acima de 500 kW) podem migrar. Economia de 20% a 35% com contrato de compra junto a comercializadoras. Consumidores residenciais em baixa tensão só poderão acessar a partir de janeiro de 2028 (Lei 15.269/2025, ABRACEEL). Até lá, não é opção pra quem mora em casa ou apartamento comum.
A assinatura ocupa um espaço específico: é a alternativa acessível pra quem não pode instalar painéis (apartamento, aluguel, telhado inadequado) e não se qualifica pro mercado livre. Se o telhado permite e você tem R$ 20 mil ou acesso a financiamento, sistema próprio ganha em todas as métricas. Se não tem, a assinatura é a melhor opção disponível até o mercado livre abrir pra baixa tensão em 2028.
Pra quem a assinatura faz sentido (e pra quem não faz)
Faz sentido pra quem mora em apartamento sem cobertura. São 37 milhões de brasileiros em apartamentos (IBGE, Censo 2022). A maioria não tem acesso ao telhado do prédio — e mesmo em coberturas, a assembleia condominial pode barrar a instalação de painéis. Assinatura é a única forma desse público acessar energia solar.
Faz sentido pra quem mora de aluguel. Não adianta investir R$ 20 mil em painéis que ficam no imóvel do proprietário. Contratos de assinatura de 12 meses casam com o ciclo de locação. Mas confirme que a conta está no seu nome — os créditos são vinculados ao CPF do titular da fatura.
Faz sentido pra quem tem telhado inadequado: sombra pesada, fibrocimento com amianto, orientação sul, ou estrutura que não suporta os 22 kg/m² dos painéis.
Faz sentido como teste antes de investir num sistema próprio. Um ano de assinatura mostra na prática como funciona a compensação de créditos de energia, o efeito do Fio B e quanto a economia representa no orçamento. Depois, decide com informação se vale gastar R$ 20 mil.
Não faz sentido pra quem tem telhado bom, capital ou acesso a financiamento. A diferença é gritante: R$ 33 mil de economia em 25 anos com assinatura contra R$ 127 mil com sistema próprio. Não faz sentido pagar 10-20% menos na conta quando dá pra pagar 80-90% menos.
E não faz sentido em áreas onde a distribuidora tem atrasos crônicos na compensação de créditos. No Norte do Brasil, há relatos de distribuidoras que levam 3 a 4 meses pra processar créditos de geração compartilhada. Se os créditos atrasam, a economia atrasa junto.
Se decidir assinar, o processo é 100% digital na maioria das empresas. Verifique que a usina está na mesma distribuidora que abastece seu imóvel (primeira página da conta de luz). Pesquise a empresa no Reclame Aqui e confirme o CNPJ no banco de dados aberto da ANEEL. Peça o contrato completo, leia as 5 cláusulas acima. Após assinar, a ativação leva de 30 a 90 dias — a distribuidora precisa registrar que sua unidade consumidora faz parte da geração distribuída. Na primeira fatura com créditos, confira se o abatimento confere com o prometido.
Perguntas frequentes
A energia solar por assinatura é confiável? Depende da empresa. O modelo em si é regulado pela ANEEL (Lei 14.300/2022, RN 1.059/2023) e funciona dentro do sistema de compensação de energia elétrica. O risco está na empresa, não no modelo. Verifique CNPJ na ANEEL, leia contrato completo e pesquise Reclame Aqui. Empresas com usinas operando há mais de 2 anos e lastro de estatal ou grande grupo (Cemig SIM, EDP) têm risco menor.
Precisa instalar alguma coisa na minha casa? Nada. A usina solar fica em outro local. Você só precisa ter conta de luz ativa na mesma distribuidora. Os créditos são aplicados automaticamente na sua fatura.
O que acontece se eu me mudar? Se mudar pra outro endereço na mesma distribuidora, a maioria dos contratos permite transferência (alguns cobram taxa). Se mudar pra outra distribuidora, o contrato geralmente é cancelado — créditos de energia são intransferíveis entre concessionárias.
A economia é menor que a de um sistema próprio? Sim, muito menor. Assinatura economiza 10-20%. Sistema próprio economiza 80-90%. A assinatura existe pra quem não pode instalar painéis. Se tem telhado e capital, vá de sistema próprio. A calculadora de payback mostra em quantos anos o investimento volta.
Posso assinar morando de aluguel? Pode, desde que a conta de luz esteja no seu nome. Os créditos são vinculados ao CPF do titular da fatura, não ao endereço do imóvel. Se mudar, solicita a transferência.